Pessoas do Bairro

Dona Neusa vende tapioca no mesmo canto da Aldeota há 31 anos

Ela conhece os clientes pelo nome, sabe quais voltaram de viagem e quais trocaram de endereço — e diz que o segredo do ponto é nunca ter faltado um sábado.

Barraca de tapioca numa calçada arborizada com equipamentos e tapiocas dispostos para venda

A barraca de Neusa fica na esquina da Rua Ana Bilhar com a Rua Tibúrcio Cavalcante, no mesmo quarteirão desde o início de 1995. Ela chegou ao ponto com cinquenta anos de vida, uma receita de família e a convicção de que quem compra tapioca na calçada não quer pressa. Trinta e um anos depois, o raciocínio não mudou.

O ponto que ela nunca trocou

Neusa conta que nos primeiros anos recebeu propostas para se mudar para uma galeria coberta perto da avenida. Recusou. A razão era simples: quem passa na calçada já conhece o cheiro antes de chegar. Numa galeria, a pessoa precisa entrar de propósito. O ponto na rua funciona porque as pessoas passam e param — não porque foram buscar.

Ela abre às seis e meia da manhã e fecha quando o goma acaba, o que geralmente acontece por volta do meio-dia. Nas manhãs de sábado, o horário pode se estender até a uma da tarde. Os clientes que chegam depois do fechamento sabem que não adianta — e voltam na semana seguinte.

Tapioca recém-preparada sobre uma chapa, com recheio visível e mãos ao fundo finalizando outra
Preparo na chapa, como foi desde o começo — sem adaptações que mudem o tempo de cocção.

A memória do bairro que passa pela barraca

Neusa guarda na cabeça uma espécie de cadastro informal dos frequentadores antigos. Sabe quem casou, quem teve filhos, quem saiu do bairro e voltou. Dois clientes que ela conheceu como estudantes da universidade próxima voltaram anos depois com os filhos — e os filhos já voltaram sozinhos depois. São três gerações de quem come tapioca no mesmo canto.

  • Neusa nunca usou delivery nem aplicativo: a tapioca é para quem está no bairro naquele momento.
  • O recheio que mais sai é o de coco com queijo — a receita é a mesma desde 1995, sem alterações.
  • Ela tem dois dias fixos de folga no ano: o Natal e o aniversário do neto mais novo.
  • A chapa atual é a terceira da vida da barraca — a primeira durou quinze anos.
«Tem cliente que eu conheço o passo na calçada antes de virar a esquina.» — Vendedora de tapioca da Aldeota, no ofício há mais de três décadas

O que ela vai fazer quando parar

Neusa tem uma filha que conhece a receita, mas que não quer o ponto. Não porque não goste, mas porque trabalha de manhã numa clínica do bairro. Quando a pergunta sobre aposentadoria vem, ela desvia com um gesto para a chapa: enquanto a goma fechar bem, não tem motivo para pensar nisso.

A Varanda Comum voltará ao ponto em dezembro para uma atualização. Esse tipo de retrato — de quem sustenta a identidade de uma rua sem nenhum cartaz ou fanpage — é exatamente o que nossa rede de correspondentes foi criada para guardar.

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