O mural da Rua Assunção ganhou um novo painel — e a história por trás dele
Um grupo de vizinhos da Aldeota passou três fins de semana pintando a parede cega de um armazém desativado e transformou o trecho numa referência do bairro.
O trecho da Rua Assunção entre a Avenida Santos Dumont e a Rua Osvaldo Cruz não chamava atenção de ninguém. A parede do antigo armazém estava descascada, e nos fins de semana o muro virava ponto de descarte de entulho. Foi num sábado de junho que um grupo de sete vizinhos chegou com baldes, pincéis e uma ideia desenhada em papel de pão.
Três fins de semana, sete pessoas e muita tinta
Não houve reunião formal, nem votação por aplicativo de mensagens. A proposta circulou de boca em boca entre os moradores de um conjunto de apartamentos próximo ao armazém. O projeto original previa apenas uma faixa com flores e pássaros, mas à medida que mais gente apareceu com tintas e sugestões, o painel foi crescendo. No segundo fim de semana chegaram adolescentes de dois colégios da área.
O trabalho de preparação da parede levou mais tempo do que a pintura em si. O reboco precisou ser nivelado em dois trechos, e a demão de branco foi repetida três vezes antes de as cores fixarem bem. No total, o grupo calcula que trabalhou cerca de quarenta horas ao longo dos três sábados e domingos — sem contar as conversas sobre o que colocar em cada pedaço.
O que ficou registrado na parede
O painel tem três painéis temáticos. O primeiro mostra uma feira com barracas e frequentadores. O segundo retrata crianças brincando num trecho de calçada larga. O terceiro — o que mais gerou debate — representa uma mesa posta ao ar livre, com vizinhos sentados juntos. Cada elemento foi sugerido por pelo menos uma pessoa do grupo, e nada foi imposto por quem tinha mais habilidade com o pincel.
- A tinta foi adquirida com contribuições voluntárias de quatorze moradores do entorno, sem campanha organizada.
- O proprietário do armazém cedeu a parede após conversa informal com dois dos organizadores do grupo.
- Nenhum material foi desperdiçado: as sobras de tinta foram guardadas para retoques futuros.
- O grupo já estuda ampliar o mural para a lateral do imóvel, se o proprietário concordar.
«O mural não é de ninguém e é de todo mundo — foi assim que a coisa funcionou desde o começo.» — Moradora do entorno, participante do grupo de pintura
A calçada mudou de tom
Desde que o painel ficou pronto, no segundo domingo de agosto, o trecho virou ponto de parada. Pedestres fotografam, crianças correm para mostrar aos pais o painel com a feira. O entulho parou de aparecer. Um morador que não tinha participado da pintura varreu a calçada na manhã seguinte à conclusão do trabalho, sem que ninguém pedisse.
O grupo não tem nome nem CNPJ, e prefere que fique assim. A ideia é que qualquer rua da Aldeota com uma parede disponível possa ter o mesmo processo. A Varanda Comum acompanhou os três fins de semana de trabalho e voltará ao local em outubro para ver como o painel resistiu ao início da estação chuvosa.